O Gavião Guerreiro Gaúcho

26/09/2018

Na semana passada escrevi neste espaço sobre a divisão de Lanceiros Negros, mártires da Revolução Farroupilha, e nesta semana quero escrever sobre o único herói verdadeiro entre os líderes da revolução.

Como muita gente vai discordar da minha afirmação, acho necessário fazer alguns esclarecimentos. Todos os demais líderes da Guerra dos Farrapos defendiam ideais ao lado de seus interesses pessoais. Bento Gonçalves era senhor de escravo, estava sentindo no bolso as perdas com a taxação exagerada do Charque, almejava a presidência da Província ou o comando do exército, ou seja, tinha seus próprios interesses atrelados aos interesses gerais do povo gaúcho.

Garibaldi, que em nada se parecia com Thiago Lacerda, era um revolucionário mercenário. Claro que ele lutava por república, mas lutava também por dinheiro, tanto que após sua saída do combate ele foi "presenteado" com alguns bens entregues pelos líderes farroupilhas.

Na minha humilde opinião, que pouca validade tem, o único herói de verdade da revolução foi Joaquim Teixeira Nunes. O líder dos Lanceiros Negros e verdadeiro revolucionário farroupilha, apesar de pouco prestigiado pela história.

Teixeira Nunes até onde se sabe nasceu em Canguçu, era de família humilde, acredita-se que filho de um tropeiro ou mascate. Entrou para o exercito cedo. Ainda jovem serviu na Guerra da Cisplatina com grande valor ao lado de homens como Bento Gonçalves, Bento Manuel e David Canabarro. Galgou por méritos de batalha seu posto militar e quando a Guerra dos Farrapos começou tinha a patente de major.

Era junto com Afonso Corte Real homem de confiança de Bento Gonçalves. Lutador extraordinário é citado no diário de Garibaldi como o maior lanceiro que ele virá lutar. Em um diário de um membro do exercito imperial, ele descreve Teixeira Nunes como o "Gavião" impossível de derrubar e rápido como uma flecha. Gavião foi o apelido que ele ganhou durante a revolução e que o acompanhou por toda a vida.

Era republicano convicto. Em sua opinião não havia outra solução para o Rio Grande que não fosse a independência e a instituição da república e da democracia com o povo escolhendo o presidente. Era também abolicionista fervoroso. Não aceitava que um homem pudesse subjugar o outro fora do campo de batalha.

Com a República Riograndense instalada recebeu, novamente por mérito de batalhas, do então comandante do exército farrapo, General Neto, a patente de Coronel.

Quando Garibaldi fez a extraordinária travessia de seus lanchões sendo puxado por bois, Teixeira Nunes e seus lanceiros comandaram a vanguarda para limpar o caminho. Na tomada de Laguna foi junto com seus lanceiros a vanguarda do ataque por terra, que daria fama a Garibaldi e Canabarro. Depois da conquista não permitiu que nenhum prisioneiro fosse morto. Dizem alguns relatos da época que ele era implacável quando estava em batalha, mas era justo e conciliador quando a batalha acabava e tratava seus prisioneiros de maneira humana e decente.

Por ser abolicionista, conversava com os negros como um igual, comia com eles e dormia no relento junto à seus homens, em uma época em que os líderes, na sua grande maioria, dormiam nas tendas aquecidas. Por chamar cada um de seus comandados pelo nome, não há duvidas de que era o único comandante que tinha a fidelidade de seus soldados por lealdade e não força da sua patente ou de seu patrimônio, como muito acontecia na época.

Há relatos inclusive que quando um de seus comandados morria ele fazia questão de visitar as famílias e dar-lhes a notícia pessoalmente. Detalhe, as famílias de seus homens eram formadas na grande maioria por escravos.

O seu grande heroísmo está no final da Guerra. Quando Caxias e Canabarro negociavam a paz o entrave era a abolição da escravatura. Canabarro até aceitava que fossem libertos apenas os homens e suas famílias que lutaram na revolução. Teixeira Nunes não. Ele queria que todos os escravos fossem livres. Até aceitava abrir mão da república pela abolição da escravatura. Caxias, claro, nem sequer cogitava uma abolição da escravatura.

O ataque nos Porongos foi para dar fim aos lanceiros, mas foi também para matar o seu líder Teixeira Nunes. Apesar de dizimar praticamente o corpo de lanceiros negros, Teixeira Nunes, e alguns de seus homens lutaram de mãos limpas e conseguiram romper o cerco e escapar. Ele chegou a ser ferido.

Em 26 de novembro de 1834, em Pinheiro Machado, ou seja, poucos dias após o massacre dos Porongos, com um grupo pequeno de homens, ainda ferido, foi destacado para uma missão de coleta de impostos por David Canabarro e no caminho de volta em uma área extremamente propicia foi atacado pelas forças de Moringue na última batalha da Guerra. Lutando bravamente, mesmo em desvantagem, conta a história que Gavião deixava um rastro de mortos e feridos em sua volta até que seu cavalo foi derrubado por boleadeiras. No chão foi atingido por uma lança desferida pelo alferes Manduca Rodrigues. Depois de morto foi degolado por Eliseu de Freitas. Seu cavalo encilhado foi vendido ao cabo Mariano e o relógio, com uma grossa corrente de ouro, ao Capitão Carneiro. Seu corpo foi sepultado em área da Igreja Matriz Nossa Senhora da Graça, no mesmo município. Ele continua no local, junto a outros combatentes.

Dois registros atestam e importância de Teixeira Nunes. Uma carta de Caxias ao Imperador informando a sua morte, quase como que se esse fato fosse determinante para o acordo de paz, e uma lembrança de Garibaldi, relatada em uma carta enviada da Itália, quando este já era herói da unificação, ao seu amigo Domingos José de Almeida, onde escreve: "Eu vi batalhas mais disputadas, mas nunca vi, em nenhuma parte, homens mais valentes, nem lanceiros mais brilhantes que os da Cavalaria Rio-Grandense...

Dos líderes farroupilhas apenas um era Lanceiro: Teixeira Nunes. Um homem de origem humilde, que viveu como vive os valentes e morreu como morre os heróis, sem jamais se desviar de seus ideais e de sua crença de que todo o Gaúcho, não importa a cor ou a origem, é igual. E ponto final.