O centroavante

14/08/2018

Aquele era um dia especial. O primeiro domingo de Marcos depois da recuperação da fratura na perna. Entraria em campo novamente no campeonato amador, diante do principal time da cidade, o União.

Dois craques jogavam lá, diziam até que Serginho o zagueiro, e Bigode o centroavante tinham sido profissionais. Juntos eles já tinham desbancados todos os bons adversários da cidade. Serginho que de pequeno não tinha nada, trucidava os atacante. Bigode, que era fã do Valdir Papel, empurrava para as redes.

Aquele era mesmo um jogo especial para Marcos. Quando ele quebrou a perna, num acidente de moto, Larissa era sua noiva. Estavam prontos para se casar, mas aquela ocorrência tirou-o de circulação, e ela não aguentou os mais de sete meses de repouso, e foi se consolar nos braços do zagueiro Serginho.

Marcos não tinha vontade de se vingar, mas humilhar o homem que roubou a sua mulher é sempre uma boa forma de aumentar a alto estima para seguir a vida.

Enfim a tarde chegou. Marcos estava nervoso. O treinador, que era também o gerente da fabrica, escalou o time e jogou a camisa 17 para o atacante, na hora ele entendeu: estava na reserva.

O jogo começou, Serginho era soberano na zaga. Bigode já tinha tido duas oportunidades, e logo pintou a terceira. Jogada de linha de fundo, bola na área, o centroavante pulou meteu a cabeça na bola e pimba, um a zero.

No final do primeiro tempo eis que o próprio Serginho avançou de traz do meio campo, ninguém chegou de imediato. Ele abriu a bola pro lateral direito que tocou para Bigode na entrada da área que escorou para trás, Marcos tinha que reconhecer, foi um belo chute e um golaço, dois a zero.

Quando no gramado o treinador gritava sem parar, no lado adversário, Marcos viu que Serginho nem acompanhava as orientações do seu treinador, estava na cerca conversando com Larissa. Seu devaneio acabou com o treinador avisando que ele iria entrar em campo. "Vai para dentro deles", gritou o treinador.

Marcos entrou e se posicionou no meio campo e olhou para a cerca e lá estava a bela Larissa, gritando como uma louca para Serginho, que olhava e ria. Lembrou de quando eram noivos e ela ia e ficava sentada apática enquanto ele jogava. Nunca gritou para ele. Desgraçada, pensou.

Em campo, Marcos tocou na bola uma vez, deixou dois marcadores na saudade, cortou rápido um terceiro homem que apareceu, ele estava voando, ia fazer o gol, mas sentiu-se atingido por um caminhão, era Serginho, que lhe arrancou a bola e foi se embora. Ele olhou para a cerca e lá estava ela vibrando como uma Maria Chuteira no quarto do Renato Gaúcho.

Levou dez minutos para aparecer uma nova chance. Marcos arrancou, cortou o primeiro, dividiu com o segundo, bola picando, olho na pelota, toque por cima do terceiro marcador, goleiro saindo desesperado, mais um toque na bola, goleiro na saudade e bola na rede. Golaço daqueles para lembrar e contar para os netinhos o resto da vida. Olhou para Serginho que estava acompanhando a jogada pelo outro lado e leu nos seus olhos que ele lamentava não ter chegado a tempo.

Jogo quase no fim, contra-ataque veloz, bola com Marcos, toque com o pé direito, pedalada, olho na bola, elástico no marcador, viu que era Serginho quem tinha ficado para trás. Viu o zagueiro ainda tentar se recuperar e vir patinando atrás de si. O goleiro surge na frente, Marcos toca colocado e a bola entra mansamente enquanto Serginho grita no meio da área. Empate!

Aquilo era incrível, dois golaços. Bigode de cabeça baixa no ataque. Serginho abatido na zaga e Marcos festejado pela torcida. Os adversários o cumprimentavam, os companheiros o agradeciam. Voltou a olhar para Larissa, ela riu de volta. O grande Marcos estava novamente, mais rápido que antes, mais mortal do que antes.

Pegou a moto e saiu feliz da vida, dobrou a primeira esquina, ainda pensando no sorriso de Larissa, quando um carro cortou a sua frente. Batida forte, ambulância, Samu, policia, e o veredicto: Marcos tinha fraturado a perna em dois lugares, mais um ano de molho.