Nós, eles e a democracia

16/10/2018

Política para quem gosta de política. O assunto, como não poderia ser diferente, esteve na crista da onda nos últimos seis meses pelo menos. Neste último mês a pauta tornou-se a mais importante do país. Tudo girou em torno do movimento do eleitor em relação aos dois melhores colocados nas pesquisas eleitorais e no ultimo domingo esse antagonismo se confirmou com a "classificação" de Bolsonaro e Haddad para o segundo turno.

Os dois programas de governo são bastante diferentes. Eu os li e mesmo sabendo que a maior parte deles não vai ser efetivada na prática, ou será modificado de acordo com o momento em que vai ser implantada, julguei ser importante lê-los agora, pois, o que está nesses planos é exatamente o que os candidatos e suas equipes pensam para o país, mesmo que esses pensamentos mudem ou que essas situações não se concretizem.

Claro que não decidi meu voto apenas com a leitura desses planos de governo, até porque, vivemos um momento impar no país, onde uma análise mais aprofundada pode nos fazer ver algo filosófico nesta época, e esses quatro anos que estão por vir, podem ser extremamente influenciadores para o futuro do país e isso me preocupa.

Gostei, que pelo menos no discurso, ambos os candidatos deixaram claro que não vão pensar na loucura que seria a implantação de uma nova Constituição. Todas as Constituições do Brasil vieram acompanhados de momentos muito sombrios.

No inicio da República a Constituição veio acompanhada de golpes, fraudes e tudo mais que mediou o mundo político dos nossos primeiros anos republicanos.

Depois vieram as duas Constituições de Vargas, uma e depois a outra. A primeira acompanhada de uma tentativa de golpe que resultou na permanência de Vargas no poder e a segunda acompanhada da ditadura do mesmo presidente.

Na sequencia veio a de 46, que levou Vargas ao poder em 1950, sua morte em 54, o crescimento do comunismo, as tentativas de golpes e por vim o inicio do Regime Militar.

Em 1967 veio a dos militares que deu legitimidade a sua ditadura e muitas das suas atrocidades.

Em 1988 veio a chamada Constituição Popular, aquela montada por uma Assembleia liderada por grandes homens, e com ela veio o turbulento momento político que culminou com a eleição e com a queda de Fernando Collor de Mello.

Nossa Constituição começa agora a ganhar um amadurecimento, mudá-la seria catastrófico para o país. O momento não é o de mudar as regras do jogo, mas o de aplicá-lo com mais razão e força para preservar as instituições que regem a democracia, porque, por mais difícil que sejam as coisas no Brasil, aqui impera a liberdade democrática, as vezes injusta, as vezes falsa, muitas vezes mal interpretada e usada, mas ainda assim livre.

Liberdade, esse é o ponto que eu queria chegar. Vivemos um momento impar no país, onde o antagonismo de ideia tornou-se antagonismo pessoal, a contrariedade de pensamentos virou contrariedade de expressão, onde todos os que acham que tem razão rogam para que os demais não exprimam as suas próprias opiniões.

Essa é a grande preocupação para o momento. O País, independente de quem garantir habitação no Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos, estará dividido. Este será o grande desafio para o Brasil que estamos prestes a entrar: ultrapassar a barreira que foi criada nestas eleições que dividiu o país. Mostrar a todos que política nada mais é do que a ciência de expressar ideias e opiniões. Esse é o fundamento da política. Discutir ideias. Qualquer atitude que venha a ferir esta causa é uma atitude contra o bem da nação.

Seria interessante se após as eleições, os dois candidatos se reunissem e discursassem juntos, independente do resultado, pedindo ao povo que deixe de lado o rancor criado neste período, e se una para a construção do país melhor.

Claro que isso não vai acontecer. Nossos políticos não aprenderam a fazer política sem o "eles". Sempre tem que haver o "eles", pois no dia em que o povo perceber que somos todos nós, nos daremos conta de que não precisaríamos mais do "eles".